De volta ao passado: cinema

Ontem, absorto em meu repouso e perdido nos pensamentos, levantei a lebre de o passado ser mais valorizado do que realmente merece, fenômeno que acomete toda a raça humana, sem exceção. Conforme prometido, e em honra à memória de um dos patronos deste espaço, Nelson Rodrigues, segundo o qual “toda unanimidade é burra”, volto ao tema.

Falemos um pouco de cinema. Não conheço qualquer lista dos dez melhores filmes de todos os tempos que não possua pelo menos cinco – na maioria das vezes, são uns sete ou oito – de antes da década de 70. Ninguém aqui quer desmerecer o velho cinema, que tem grandes películas – pra ficar em poucos, alguns nem tão antigos assim, lembremos Sindicato de Ladrões (1954), Um Dia de Cão (1975), Um Estranho no Ninho (1975) e os dois primeiros filmes da maior trilogia até hoje realizada, O Poderoso Chefão I e II (1972, 1974) –, feitas com tanto esforço e tão poucos recursos se comparados aos atuais.

Mas essa dificuldade pretérita não justifica o elogio desmedido a uma série de filmes mal acabados, que exigem uma imensa força de vontade para acompanhá-los e tentar enxergar ali alguma aproximação do real que procuram transmitir. O aclamado diretor Hitchcock realiza em Pacto Sinistro (1951) uma das cenas de perseguição mais inverossímeis de todos os tempos. O futuro assassino segue sua vítima num parque de diversões durante uns bons metros. Até aí nada demais, a não ser que essa perseguição é feita a poucos passos, numa distância curtíssima durante todo o tempo, inclusive quando a vítima embarca num barquinho – uma das atrações do parque – e o assassino toma o seguinte, segundos depois e exatamente atrás dela. Em nenhum instante durante todo esse périplo ela percebe a “invisível” presença logo atrás de si e, claro, morre quando sai do barquinho. Talvez tão falso quanto a sequência de socos que Rocky Balboa e Apolo Creed desferem um contra o outro em Rocky I, ganhador da estatueta de melhor filme em 1977 e na maioria das vezes visto como um grande filme que se perde em meio aos seus sucessores na série. Ora, além da péssima atuação de Stallone, que inicia e termina todas as suas falas com um irritante “you know what I mean” – em tempo, ele foi indicado ao Oscar de melhor ator pela “brilhante” atuação, talvez por conseguir repetir 874 vezes a mesma frase com a mesma entonação –, os citados socos param há pelo menos um palmo do rosto que “atingem”, provocando os piores ferimentos que se possa imaginar, no bom-senso.

Apenas dois exemplos que poderiam se multiplicar, se eu brincasse ainda mais com a paciência dos meus poucos e corajosos leitores. Por outro lado, vários filmes realmente bons dos últimos anos não têm, entre os “entendidos” da sétima arte, o destaque que mereceriam. Se roteiros como o de 21 Gramas, Efeito Borboleta, O Sexto Sentido, Se7en, O Amigo Oculto, Match Point, Clube da Luta, Forrest Gump, entre tantos outros, tivessem sido escritos e rodados há 50 anos, estariam na galeria das obras sagradas. Se Marlon Brando tivesse uma atuação parecida com a de Jamie Foxx em Ray, seria o maior talento que já se viu no planeta. Como, porém, cometeram o pecado de surgirem mais recentemente, são referidos por muitos com a pejorativa alcunha de filmes, e atores, blockbusters.

Abre parênteses. Parte significativa desse tipo de crítica surge menos pela nostalgia e mais por uma espécie de preconceito que nasce no espírito anti-imperialista, anti-Hollywood, que reverbera em boa parte da crítica de cinema e tende a sobrevalorizar filmes europeus de menor orçamento, e muitas vezes de menor qualidade, em detrimento dos estadunidenses. Esse malfadado espírito não é novidade, não se reserva à crítica de cinema, já deu o ar de sua graça em comentários realizados neste mesmo espaço e certamente voltará à baila em textos futuros. Fato é que, tomados por ele, os formadores de opinião tendem a olhar com maus olhos tudo aquilo que vem de Hollywood e tem um orçamento razoável, ou seja, todos aqueles capitalistas selvagens que cometeram o acinte de conseguir angariar um bom punhado de dólares para rodar um filme na Meca do cinema. Fecha parênteses.

Independente da razão – pura nostalgia ou ideologia pré-fabricada – temos no cinema, assim como nos videogames, mais um caso em que, injustamente, reserva-se a Casa Grande ao passado e a senzala ao presente. Se hoje não existem apenas coisas boas nas telonas (e como existem coisas ruins, diga-se de passagem) no passado não era diferente. Os grandes diretores daquela época também fizeram coisas horríveis, os grandes atores tiveram atuações decepcionantes. Tanto quanto os de hoje.

E não consegui falar sobre os outros temas, futebol e música. Volto a eles.

Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

3 Responses to De volta ao passado: cinema

  1. Marcelo Cerri says:

    Ótimo texto. Sou apaixonado por cinema e digo que tive uma época em que assistia somente a filmes antigos, pelos memos motivos citados acima. O problema hoje é que nós temos atores e diretores que são grandes artistas, mas também temos aqueles que fazem filmes com o fim unicamente comercial. Nada contra, se os consumidores se divertem e os empresários enriquecem assim, ótimo! Nada mais justo do que o fabricante de um produto vender aquilo que satisfaz o cliente. Mas não podemos dizer que “Independence Day” é uma grande obra de arte! Também não podemos dizer que a busca pelo dinheiro não impulsionava o cinema de décadas atrás. Em termos reais (dólares deflacionados) “E o Vento Levou” é ainda a maior bilheteria da história. Outro exemplo é Sergio Leone, que sempre sonhou em fazer um filme gangster, mas os donos do dinheiro o obrigaram a fazer westerns até que esse gênero de filmes não fosse mais o mais rentável. Resultado, o grande diretor italiano fez grandes clássicos como “Once upon a time in the west”, “The Good, the Bad and the Ugly”, mas só conseguiu rodar seu tão sonhado gangster (“Once upon a time in America”, outro clássico) no final de sua vida, quando o mercado era favorável aos gangters. Resumindo: não acreditemos que o dinheiro corrompa o cinema, muito pelo contrário.

    • Thiago says:

      Concordo, Marcelo. Definindo “arte” como algo capaz de elevar o espírito humano de alguma forma (acabei de inventar essa definição), Independence Day não é dos mais artísticos. De outro ângulo, o trabalho de efeitos visuais impressiona, o que me leva mais a glorificar o avanço tecnológico do que a “arte” do filme… Opinião basicamente igual nutro por Avatar. São mais computadores e menos cinema. Não gosto.

  2. Anônimo says:

    como nao se pode dizer que independence day nao é uma obra de arte?
    todos os aspectos visuais dele me fazer crer o contrário… imagina o trabalho pra desenhar os etzinhos etc etc

    classificá-lo como um grande roteiro da literatura mundial é ouuutra questao

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