De volta ao passado

Queridos leitores, estou em repouso. Hoje pela manhã passei por uma dificilícima cirurgia para extração de dois dentes do siso. Daqui a duas semanas tem mais, vão os outros dois…

Convalescendo que estou, minha estimada mãe tem me agraciado com todo o tipo de mimos e de atenção. Já estive deitado na cama com cinco travesseiros a me aconchegar, já tomei sorvete, já degluti com dificuldade uns caldinhos muito nutritivos que ela fez (gelados, claro, pois não posso colocar nada quente em minha querida boca) e, agora, vi-me obrigado a sair por instantes dessa justa mordomia para vir até a frente do computador ter com vocês.

Em meio  ao sorvete, aos caldinhos e a uns cochilos, sobrou algum tempo para pensar. E esses pensamentos começaram com recordações de tempos passados, em que muitas vezes a realidade que estou vivendo hoje era mais regra e menos exceção. Em poucos minutos de memória, assaltou-me um saudoso “Como o passado era bom!”. E continuei a relembrar… o meu Atari, o pogobol, o lango-lango, os Thundercats, o lego, o dip-link que eu, inverterado gordinho, nunca rejeitava, o autorama Senna versus Piquet, o jogo de bola queimada na rua do interior onde morava, a corrida de pneus no Jardim 2, quando fiquei em segundo lugar, o dia em que tentei atravessar uma porta de vidro utilizando como escudo as próprias mãos e me cortei todo… “Como o passado era bom!”

Cochilo. Acordo novamente e volto a pensar, mas agora as idéias tomam outro rumo. Em vez da afirmação, a dúvida. “Será que o passado era mesmo tão bom?” Forço a memória e tento relembrar jogos do Atari. Consigo um. O jogo de boxe, talvez o meu predileto, era requintado, a “câmera” tinha um ângulo de cima pelo qual se conseguia ver perfeitamente os lutadores que pareciam uns… umas… aranhas. De patas, ou braços, enormes, absolutamente descomunais em relação ao resto do corpo – como resto do corpo entenda-se a cabeça e um ponto que provavelmente fosse o nariz, as únicas outras coisas que apareciam além dos tentáculos com uma bola (a luva) nas pontas. Consigo outro. Enduro, um jogo de corrida em que, sem o menor esforço, apenas apertando o botão laranja e único do controle – o nome  joystick é coisa da década de 90 – e direcionando um bastão que ficava no centro do mesmo controle, era possível ultrapassar todos os adversários que surgiam, a não ser que você batesse em algum deles, pois aí o carrinho, que, incrivelmente, assim como os lutadores de boxe parecia uma aranha, só que de espécie diferente, era ultrapassado por alguns até que voltasse ao seu rumo normal. O jogo tinha umas quatro fases, começava durante o dia, numa pista verde – seria um campo? – passava para noite, neblina, neve e talvez alguma outra que esteja me esquecendo. Se você conseguisse passar por todas sem bater em muitos rivais, que eram contados numa barrinha abaixo, na tela, você vencia e a barrinha passava a mostrar um monte de tacinhas. Tudo isso em uns dez minutos, se tanto. Sem tempo de volta, sem volta, sem pistas diferentes, sem nada além.

Do pensamento, sai Atari e entra Playstation 2, o que de mais avançado eu já tive a oportunidade de experimentar em termos de videogame. Pra começar, o console – outra palavra que não existia na década de 80 – também reproduz DVD, algo que, no passado que era tão bom, era representado pelas fitas VHS de videocassete, aquelas que em 90% das locações apresentavam alguma faixa preta – que não era de censura – ao longo do filme e, depois de assistidas, tinham de ser rebobinadas antes da devolução para a locadora, senão era multa. Extras? Cenas que foram cortadas na edição? Entrevistas com o diretor e os atores? Opção de legendas? Você só pode estar brincando.

Mas voltemos ao Playstation e aquilo para que foi inventado. Jogos. Tento buscar comparações para o boxe e a corrida do Atari. Encontro. Final Fight 3, um jogo de boxe que conta com reproduções incríveis de alguns dos maiores lutadores da História, como Casius Clay, Joe Frazier, Sugar Ray Leonard, Roberto “Mano di Piedra” Durán, Evander Holyfield, entre outros, e que permite que você monte os duelos mais impensáveis, intercalando gerações num mesmo ringue em lutas bastante reais, com sangue – lembro-me por um instante dos meus dentes – e tratamento com vaselina, além de belas mulheres, nos intervalos dos assaltos. Vou para o próximo. Gran Turismo 3, um jogo com uma infinidade de carros esportivos que vão sendo disponibilizados conforme o jogador consegue resultados nas pistas. Você ganha prêmios pelo desempenho que podem ser usados para comprar novos carros ou melhorar os que já possui, visita pistas incrivelmente reais de toda a parte do mundo e de todo o tipo que se possa imaginar. Ah, e para disputar carreiras mais profissionais, precisa passar por uma série de testes em vários circuitos, que certificam sua habilidade ao volante.

Parto para o veredicto: bom, de fato o Playstation é de manejo mais difícil. O controle, além dos dois tipos de direcionais e dos botões de início e seleção, tem nada mais nada menos do que oito botões, muito para quem se ambientou com o botão único do Atari e depois migrou para os três botões mais direcional e início do Mega Drive. Mas o esforço de memória e destreza nos dedos é compensado por uma qualidade infinitamente superior, absolutamente incomparável, de deixar o velho Atari aturdido no canto daquele quartinho de bagunça. Aqueles que deixam o saudosismo falar mais alto, desafio apenas a jogar um jogo do Atari que seja. Podem ser baixados de qualquer computador – computador nos anos 80? – com conexão de banda larga – banda larga nos anos 90? – em poucos instantes.

A tola comparação entre videogames me levou a pensar um pouco sobre o passado e o presente. A avaliar se o passado foi mesmo tão bom como nossas memórias e o tempo que passa e tende a romantizar tudo o que foi vivido nos fazem crer.

Amanhã continuo, falando um pouco de cinema, de futebol e de música.

De volta para a caminha…

Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

12 Responses to De volta ao passado

  1. Foca says:

    Rickyy,

    Melhoras para o seus dentes, ou melhor, para a ausência deles.

    Os MELHORES jogos de video-game que eu já joguei foram os jogos de verão mo Master, um jogo de volei de praia do Nintendo e o famoso super mario bros 3 também do Nintendo. Depois desses jogos, o mundo do video game entrou em declínio…

    • Thiago says:

      Ricky, você é mais um daqueles que se prende ao passado por não ter coordenação motora suficiente para desfrutar as benesses do século XXI… Abraço nostálgico.

  2. Karen says:

    Sabia que num momento lendo seus posts, vc ia me fazer chorar…

    O importante, afinal, é aproveitar cada fase da vida…
    =)

  3. Karen says:

    Caldinhos gelados???
    Não sabia que minha mãe fazia isso…
    =)

  4. Marcelo Cerri says:

    Fio… por que não arrancou os quatro de uma vez? Parece que gosta de sofrer em dobro!
    Tenho uma explicação muito simples para o mistérioso saudosismo que muita vezes nos domina. A nossa memória trabalha em um modo muito interessante, preservando as alegrias e esquecendo as tristezas. Não fosse assim, viveríamos em um sofrimento exponencial que faria o envelhecimento ser o pior dos infernos. Então, a não ser que seja por um trauma muito forte, nossa mente nos faz o grande favor de sentir prazer ao lembrar do passado. Um exemplo é a escola. Quando me lembro da minha infância escolar, sinto uma grande vontade de voltar aqueles anos em que tudo era inocência e diversão. Mas ao deixar os sentimentos de lado e começar a lembrar com a razão, minha mente me faz lembrar que passava todas as manhãs, o tempo todo, angustiado, querendo voltar para casa. Quando estava em casa era uma tortura a lição de casa. Na maior parte do tempo a escola me deixava triste, mas hoje os momentos jubilosos predominam em minha memória.
    Por isso eu te peço: não nos faça recordar que o Atari era uma merda! Estamos muito bem nos lembrando dele como o vídeogame mais espetacular que já inventaram.

  5. Marcelo Cerri says:

    Vc esqueceu do melhor jogo que já inventaram: river raid

    • Thiago says:

      Não esqueci do River Raid não. Não o mencionei simplesmente por não ter contato com jogos mais modernos de aviação para poder comparar… Abraço.

  6. Renato says:

    River Raid é foda! Dizem por aí q tem um final. Eu nunca vi. Alguém já?

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