O carro do amigo

Imaginem a seguinte situação:

Eu estou com o carro de um amigo emprestado quando assisto a um assalto de outro carro. Comovido pela situação, pego a chave do carro do meu amigo e dou para a vítima do assalto. Só que eu não tenho a menor condição de reembolsar o meu amigo e ele ainda estava pagando o financiamento do carro.

Se você fosse o amigo que perdeu o carro, o que acharia dessa minha atitude extremamente solidária, exemplo da generosidade entre os povos? Pense um pouco na resposta enquanto lê as próximas linhas…

2010 começou abalando as estruturas, literalmente. Em 12 de janeiro, o Haiti sofreu um terremoto que vitimou mais de 200 mil pessoas e levou o caos ao paupérrimo país centro-americano. No último sábado, foi a vez de nosso vizinho Chile sofrer intenso abalo. Ambos os fenômenos têm recebido ampla atenção na mídia, mas, como de costume, as notícias têm sempre um cheirinho de mais do mesmo. Ora é a escalada no número de vítimas, ora a história comovente de alguém que foi resgatado vivo depois de dias embaixo de escombros. Lados importantíssimos, e muito mais próximos a nós, brasileiros, passam despercebidos.

Alguém, por exemplo, analisou com a devida atenção a ajuda de R$ 375 milhões que o presidente Lula anunciou ao Haiti no dia 26 de janeiro? Pois analisemos juntos.

Quando um governante é eleito, o povo transfere a ele poder para tomar determinadas decisões em seu nome, sobretudo em questões urgentes e relevantes. É o caso, por exemplo, das enchentes que assolam São Paulo nas últimas semanas e castigaram Santa Catarina anos atrás. São casos excepcionais que exigem atuação rápida dos governos. Imaginando um grande bolo em que cada um fornece um pouquinho dos ingredientes, na forma de impostos, é natural que, em situações como a das enchentes, parte do bolo que seria por direito de quem forneceu os ingredientes seja repassada a quem tem mais fome no momento. Afinal, são todos brasileiros e todos contribuíram para o bolo.

A situação do Haiti é totalmente diferente. Por mais desalentadora que seja, nada nela autoriza o governo brasileiro a agir como um Grande Irmão que tudo sabe e tudo pode, despejando milhões de reais no país caribenho sem qualquer autorização do povo. O disparate se torna maior à medida que milhões de brasileiros sobrevivem em situação de miséria ainda distante de ser solucionada.

Não quero dizer com isso que o Haiti não mereça ajuda internacional. Claro que merece, mas são decisões que devem ser tomadas ou individualmente, na medida que a consciência de cada um considere adequada (várias contas bancárias foram criadas para receberem doações ao Haiti), ou por entidades multilaterais, como o Banco Mundial, que já existem e recebem auxílio de vários países para situações desse tipo, ou, em última instância, por países em situação confortável e de forma muito prudente.

O Brasil, além de não se encaixar no “confortável”, viajou na maionese, pirou no seu sonho de ser potência mundial. Vejam alguns números.

O Banco Mundial, entre perdão à dívida haitiana e recursos adicionais, liberou cerca de R$ 250 milhões; os Estados Unidos anunciaram cifra próxima de R$ 180 milhões; a União Européia, que reúne 27 países, liberou R$ 1 bilhão, o que, rateado, significa algo em torno de R$ 37 milhões para cada país; adicionalmente, outros países europeus anunciaram doações próprias. As três maiores foram de Inglaterra (R$ 18 milhões), Noruega (R$ 9,5 milhões) e Espanha (R$ 8 milhões). Austrália (R$ 16 milhões), Japão (R$ 9 milhões) e Canadá (R$ 8,5 milhões) foram os outros países que anunciaram quantias mais gordas.

Se antes pareciam apenas descabidos, diante desses números os R$ 375 milhões do governo brasileiro (ou nossos, para ser mais preciso) ao Haiti passam a soar como verdadeiro acinte a todos os brasileiros que contribuem com pesada carga de impostos e, sobretudo, àqueles que precisam de serviços públicos para sobreviver.

E agora já sabemos que o Brasil será generoso também com o Chile, que, só para constar, dá baile de desenvolvimento no próprio Brasil…

E vem aí a Copa do Mundo em 2014! E as Olimpíadas em 2016! Meu Deus…

Ah, na situação inicial eu represento o governo brasileiro, o assaltado é o Haiti e o amigo somos todos nós, é o povo brasileiro. E aí, qual a sua resposta?

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

14 Responses to O carro do amigo

  1. Renato Oráculo says:

    Ah, não implique com o sapão barbudo e sua fauna petista. Afinal, são animais irracionais e não sabem o que fazem.

    • Thiago says:

      Muito pelo contrário, meu caro Renato. Se existem seres racionais e que sabem muito bem o que fazem, são esses que você chama de maneira pouco elogiosa.

      Abraço, obrigado pelo comentário e continue por aqui!

  2. Marcelo Cerri says:

    Parabéns pelo artigo!
    Fiquei impressionado com a comparação. Vale ressaltar que quando se fala na quantia de doação de cada país, nos referimos ao governo, não ao país todo. Por exemplo, os R$ 180 milhões dos EUA não incluem as doações particulares. Seria interessante saber também esses números, pois podemos ter casos de povos que ajudam muito mais que seus governos, o que é a situação mais desejável.
    Não concordo nem um pouco com a política brasileira, que, aliás, tem sido internacionalmente vexatória nos últimos anos. Mas sobre a legitimidade dessa ação particular, acredito que Lula não esteja ferindo nenhum princípio democrático ou mesmo dando o nosso dinheiro aos outros sem autorização. O que ocorre é que nós temos os parlamentares que nos representam no Congresso Nacional. Como o presidente não pode fazer um plebiscito para consultar o povo, a nossa autorização indiretamente deve vir do Congresso. Pois bem, o artigo 62 da CF88 dá ao presidente o poder de editar MP’s, o qual é limitado pelo Congresso, pois este deve apreciar a medita em até cinco dias e transformá-la em lei em 30 dias, caso contrário a MP perde eficácia, deixa de existir na prática.
    Resumindo, acho ridícula tal ajuda, mas é legal e não é antidemocrática. O governo nos pediu autorização para doar o nosso dinheiro ao Haiti e nós a demos por meio de nossos representantes!

    • Thiago says:

      Pois é, Marcelo. Se o Brasil (população, parlamentares) fosse um país minimamente esclarecido e atuante politicamente, se a oposição e o eleitorado exercessem os seus papéis, por exemplo, você estaria cheio de razão, tanto na teoria quanto na prática.

      Como não é, a razão se restringe à teoria. Dê uma pesquisada em quantas MP´s foram rejeitadas pelo Congresso desde que elas existem. Tornaram-se, há muito, o jeito mais eficiente de se governar, pois permitem ao governo fazer praticamente tudo com um risco praticamente nulo de rejeição. Simplesmente porque no Brasil não existe oposição. De fato, não é ilegal ou anti-democrático o que o Lula fez. Não sei se podemos dizer o mesmo em relação à ética, à moralidade.

      De qualquer forma, seja o Lula, seja outro, o importante é que nossos governantes sabem melhor do que nós onde aplicar o nosso próprio dinheiro.

  3. Mateus says:

    Acho que acima do fato de ter liberado o dinheiro sem consultar, o principal problema é a cifra, até o Tio Sam mandou menos. E parece que vem mais, lembro que li em algum lugar algo sobre o Celso Amorim dizendo que poderiam liberar mais de R$420 milhões para o Haiti.

  4. Foca says:

    Gozado, os mesmo que vociferam contra a ajuda ao Haiti falam alguma coisa sobre a quantidade de juros sobre a dívida que pagamos hoje e no passado a bancos nacionais e internacionais? Até onde eu sei, isso nunca passou por um plebiscito no país. Ou ainda sobre a ingerência que sofremos no passado quando nos emprestavam dinheiro e recebíamos ordens (que também nunca passaram por congresso )? Aliás, ordens essas que se revelaram fracassadas após tantas crises nos anos 90…

    Parece que há uma certa vontade tropical em permanecer sob a tutela dos mais fortes. Apesar de concordar que há vários erros na política externa do governo Lula, é só o Brasil assumir um papel mais ambicioso de liderança regional que vozes internas já o acusam o governo de autoritarismo ou de gastar a toa. Mas enfim, parece que essa gente já não é mais a maioria do país…

    Em tempo, sou a favor da ajuda humanitária ao Haiti e ao Chile.

  5. Daniel says:

    Aê Foca, tudo bem?

    Sobre sua explanação acerca do pagamento dos compromissos assumidos pelo governo brasileiro em tempos pretéritos, recomendo que você faça o seguinte: vá até a Casas Bahia mais próxima, compre uma torradeira no carnê e NÃO pague as prestações. Depois que você receber uma cartinha do SPC, entenderá por quê honrar seus compromissos é a melhor decisão.

    Ainda, se você é a favor de ajudar o país A, B ou C, pegue o seu rico dinheirinho e distribua-o a vontade. Melhor, entregue pessoalmente ao Luiz Inácio. Agora, usando o fio de democracia que ainda resta aqui na selva, não venha querer empurrar guela a baixo sua tara coletivista. A frase “parece que essa gente já não é mais a maioria do país” resume bem o regime tirânico – travestido de democracia plebiscitária – que o PT está louco para implantar no Brasil.

    Em suma, não mude sua opinião, tampouco sua conduta. Só não queira algemar os outros à elas. Ao contrário de uns e outros, prezo pelos direitos da minoria, especialmente na sua forma mais diminuta: o indivíduo. Eu. Você.

    (Esse raciocínio não tem contra-indicações para ser utilizado nos casos de Bolsa-Família, Previdência Social, Sistemas Públicos de Saúde e Educação, Empresas Estatais e quaisquer intervenções/restrições governamentais sobre a livre iniciativa e a economia de mercado.)

    Pra relaxar, uma piadinha do saudoso Ronald Reagan. Vocês sabem como diferenciar um comunista de um anti-comunista? Comunista é aquele que leu Marx e Lênin. Anti-comunista é aquele que entendeu Marx e Lênin.

    abraços

  6. Daniel says:

    Um vídeo para os amigos.

    Livres para escolher – 4 from OrdemLivre.org on Vimeo.

  7. Daniel Zaitz says:

    Continue mandando bem no blog! Não perca a motivação! Virei leitor…
    Abs

  8. Foca says:

    Daniel,

    Você como economista já deveria saber que países não são iguais a pessoas, famílias, etc. Se quiser, podemos relatar algumas dezenas de países que não pagaram seus carnês em dia e continuaram na trilha do desenvolvimento. Mas essa é outra história e não é central no meu argumento.

    A essência do meu argumento é que certos “pagamentos” que o governo faz não são democráticos. Incluindo aí os empréstimos que sofremos para pagar ou qualquer uma das ajudas humanitárias. Eu prefiro o último, mas não pretendo dizer que ele é mais ou menos democrático.

    Não sei da onde você tirou a minha “tara coletivista”. Eu simplesmente relatei a adesão ao governo lula. Pode olhar a última pesquisa Datafolha. Agora você me explique também onde está o regime “tirânico”.

    Por fim, aconselho reduzir a retórica ofensiva que você usou contra mim ou contra o nosso suposto governo-monstro. Eu queria entender por que tanta raiva contra um governo que gerou lucros extraordinários a bancos e indústrias. Eu sempre apreciei a visão e a exposição de idéias dos liberais “puro sangue”. Mas, na minha opinião, ela não precisa desse tom lacerdista aqui presente. Remetendo ao colega Renato, será o medo do Sapo barbudo e sua fauna de sindicalistas irracionais?

  9. Marcelo Cerri says:

    A coisa está esquentando por aqui… Bom, não pagar uma dívida livremente assumida não é somente questão de conveniência, mas de ética. Se um país tem a sua disposição um montante X para cumprir seus compromisso ou para ajudar os mais necessitados, para não ser antiético, deve saldar suas obrigações. Além do mais, não consigo me lembrar de países caloteiros que estão “na trilha do desenvolvimento”. Até mesmo o Lula sabe muito bem que pagar dívidas é prioridade.
    Agora vamos ao x da questão… Lula não doa o nosso dinheiro aos mais pobres porque é bonzinho, mas para consolidar sua imagem de líder internacional e de homem caridoso. Às nossas custas ele faz seu jogo político pessoal. Ele sabe muito bem que o Chile com terremoto está em melhores condições sociais que todo o Norte e Nordeste brasileiro. Então por que ajudar? Não faz o menor sentido. O Chile nunca ofereceu dinheiro ao Brasil para ajudar os milhões de brasileiros que estão na miséria!

  10. Thiago says:

    Caramba, o negócio esquentou. Que bom! Alguns comentários em meio à discussão (vou tentar ser o mais desapaixonado possível).

    Foca, embora tenha entendido sua intenção (poxa, os mesmos que não reclamam quando o governo dá dinheiro pros ricos reclamam quando o destino são os pobres!), você fez uma comparação absurdamente descabida. Uma coisa é você tomar dinheiro emprestado e pagar os juros relativos ao tempo em que fica com o dinheiro que não é seu. De um lado estão os poupadores e de outro os gastadores, os primeiros apenas vão aceitar emprestar se receberem algo por isso. E os segundos apenas conseguirão continuar tomando dinheiro emprestado se pagarem o que devem. Se não pagarem, os juros exigidos para os empréstimos futuros serão cada vez maiores. Ninguém os obriga a tomar empréstimos, mas se o fazem, têm de entrar no jogo. É simples. Além do mais, quando um governo decide tomar algum emprestado, isso faz parte de seu plano de governo, ou seja, faz parte do pacote que os eleitores escolheram ao votar nele. Se alguém vota num cara que promete crescer vistosamente num país que não poupa pra investir, deve saber que o sujeito terá de buscar dinheiro em algum canto e, se for honesto, honrará o empréstimo com o pagamento de juros. Em outros termos, o governante propiciará um crescimento que será bom para o eleitor por um lado e, por outro, usará parte dos impostos desse mesmo eleitor para pagar a dívida que fez para crescer.

    Já a ajuda humanitária é um departamento completa, mas completamente diferente. Primeiro, porque não faz parte de plano de governo. É um fator exógeno que não tem como os eleitores advinharem que irá acontecer ao votarem. Segundo, não traz qualquer benefício direto para os eleitores, apenas para o ego e para a imagem do governante que posa de bonitão perante o resto do mundo, como bem disse o Marcelo.

    Assim como você, Foca, sou a favor da ajuda humanitária ao Haiti, como escrevi no post. Desde que dada por alguém que escolheu fazer isso ou por alguém em condições de fazer isso. Nos exemplos do post, todos os doadores estavam em uma condição ou outra (assim como estão outros países, empresas ou personalidades que doaram grandes quantias). Apenas o Brasil destoou. Usando a linguagem honrada de meu querido pai, neste episódio apenas o Brasil se portou como aquele que “come calabresa e arrota peru”. Será que a Noruega passa por uma situação mais complicada do que a nossa? Será que, seguindo sua linha de visão, a China não quer ser uma liderança mundial? E será que vai ser dando dinheiro pro Haiti que o Brasil se tornará uma liderança mundial? Enfim, será que todos estão errados e apenas o governo brasileiro está correto?… seria cômico não fosse trágico para os nossos necessitados.

    Outra coisa, caro Foca, ficou muito generalista o seu “essa gente não é mais a maioria do país”. Li várias vezes e o máximo que consegui foi concluir que você se referiu aos apátridas, aos imperialistas, aos vendilhões da Pátria. É isso mesmo? Se for, estou de pleno acordo, apenas acho que eles nunca foram maioria.

    Para ficar claro, não sou nem de direita nem de esquerda. Até porque para mim isso não existe mais (se é que algum dia existiu). Tento apenas olhar cada fato separando-o de paixões, de ideologias pré-fabricadas que servem apenas para nos colocar uma venda sobre os olhos.

    Grande abraço a todos. Obrigado pelas palavras, que sempre são bem-vindas e… continuem por aqui!

  11. paolo says:

    pense no haiti
    reze pelo haiti

    o haiti é aqui.

  12. Daniel says:

    Foca

    Estamos confrontando ideias. Entendo não ter lançado nenhuma ofença contra a sua pessoa. Assim sendo, respeitosamente, NÃO seguirei o “conselho” que você me deu no último parágrafo da sua réplica. Continuarei a revelar o conteúdo tirânico, sem nenhum carinho na forma, daqueles que pensam e/ou querem que o estado (o aparato de compulsão e coerção, by L. v. Mises) seja o centro irradiador de tudo na vida das pessoas: lucros, prejuízos, bondades, maldades, verdades ou mentiras.

    Abç

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