Tiger Woods e a inversão de valores

Tiger Woods é o maior golfista e um dos maiores esportistas de todos os tempos. No Brasil, não é muito conhecido devido à pouca popularidade do golfe, esporte de elite e muito pouco dinâmico para o espírito descompromissado e festeiro dos tupiniquins, mas os números do californiano são incríveis.

Com 34 anos, menos de 15 deles dedicados ao circuito profissional num esporte cujas carreiras costumam se estender por cerca de 30 anos, Woods já detém o recorde geral de maior número de semanas como primeiro do ranking mundial e também de mais semanas consecutivas nesse posto. Foi o golfista mais jovem a conquistar um torneio Major (equivalente ao Grand Slam no tênis), com 21 anos, coleciona atualmente 14 desses torneios – número inferior apenas ao do também legendário Jack Nicklaus, que venceu 18 em seus 28 anos na elite do golfe – e tem 71 conquistas considerando todo o circuito, tendo sido ainda o mais jovem a atingir a marca de 50 taças.

O tamanho do talento e do sucesso profissional pode ser medido em cifras. Woods foi com folga o atleta mais bem pago do mundo em 2008, ganhando a bagatela de 110 milhões de dólares entre prêmios e patrocínios.

Big Tiger em ação... nos campos.

Está no mesmo patamar de Roger Federer, Michael Jordan, Ayrton Senna, Michael Schumacher, Valentino Rossi, Pelé. É gênio.

Impressionados com os números? Pois o que vem a seguir impressiona ainda mais. Tiger Woods atualmente está fora do circuito, simplesmente fora de atividade, um semi-aposentado. Contusão, tédio por tantas vitórias, pela falta de adversários? Não, nada disso. Tiger Woods está em férias forçadas, acreditem se puder, por ser infiel à esposa.

No final de 2009, descobriu-se que big Tiger mantinha mais de dez teúdas e manteúdas e que seu apetite sexual era um tanto mais voraz do que o habitual. Seguiu-se o maior processo de linchamento moral dos últimos tempos. A provinciana e falsa moralista sociedade estadunidense, em mais um de seus surtos de inversão de valores, colocou acima de todas as conquistas, de tudo o que Woods já fez pelo esporte e pelo próprio país, um fato absolutamente pessoal do ser humano, que, certo ou errado, não tem nada a ver comigo, com você ou com eles. O big Tiger viu-se obrigado a dar um tempo nas tacadas.

Dirão uns que o caso é especial, porque entre as virtudes de Woods era vendida também a imagem de bom moço, pai de família e marido exemplar. Não estarão mentindo, porém já partirão do ponto de partida errado, pois, sendo Tiger Woods um esportista, e não um sacerdote ou um pastor, nunca a imagem da vida pessoal dele poderia ser mais importante do que a esportiva e embasar a execração pública a que assistimos. Além disso, quem vendia a pretensa imagem de homem correto era menos o próprio Woods e mais os seus patrocinadores e a imprensa, interessados em faturar. Por fim, não é demais lembrar que essa mesma sociedade falsamente puritana quase tirou um presidente do poder por ter um caso com a estagiária. E Bill Clinton nunca ostentou imagem que fugisse à de um galanteador.

Transportando para o Brasil, seria mais ou menos o mesmo que Kaká, o nosso bom moço, pai de família e marido exemplar, ser tirado da seleção brasileira na próxima Copa do Mundo por ser descoberto como um amante contumaz. Provavelmente o jogador monopolizaria as manchetes das revistas de celebridades e dos programas televisivos altamente culturais que infestam o país, mas jamais passaria pela cabeça do Dunga e mesmo do torcedor brasileiro excluí-lo do esquete canarinho por conta disso.

Brasil 1 x 0 Estados Unidos. Saímos na frente. Mas, voltando ao big Tiger, o que mais me incomodou, talvez por estar mais próximo a mim, foi assistir ao Jornal Nacional, o qual não me lembro ter dado sequer 30 segundos de sua pauta para noticiar qualquer dos recordes do golfista, transmitir seguidas, longas e repetitivas matérias exaltando o circo criado em torno da vida amorosa do atleta. Um lastimável caso de importação acrítica de notícias, equivalente a um gol impedido. No jogo Tiger Woods, o placar é mesmo Brasil 0 x 0 Estados Unidos.

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