A hipocrisia no mercado de trabalho

Sentei cá à frente da tela já com um tema em mente. Por coincidência, quando me preparava para começar a escrever, o Jornal da Globo noticiou uma decisão judicial que obriga as Forças Aéreas a aceitarem candidatos com menos de 1,60m, modificando uma regra até então vigente.

Perfeitamente a calhar, pois o tema de hoje é o reinado da hipocrisia no mercado de trabalho, mais um dos golpes à liberdade das pessoas, das instituições.

Semana sim, outra também, o noticiário, sobretudo televisivo, vem a público bradar contra o preconceito no mercado de trabalho, denunciando casos infames em que baixinhos, gordinhas, homossexuais e quetais são preteridos por serem baixinhos, gordinhas, homossexuais. De um lado, sempre um empresário preconceituoso e, de outro, uma pobre alma indefesa, que normalmente dá a entrevista sentada em frente a uma mesa cheia de papéis – confesso que nunca entendi esse caricato quadrinho criado pelos repórteres, seria para imitar o ambiente de uma entrevista?

Um absurdo preconceitos como esse, não? Não, claro que não. O absurdo existe, mas está do outro lado. Quer dizer que, se eu tenho a minha padaria, o meu escritório, o meu consultório, não posso colocar para trabalhar nele quem eu bem entender? Tenho que seguir regras criadas pela demagogia politicamente correta mesmo que com elas eu não concorde?

Em qualquer processo de seleção, uma pessoa será escolhida e as outras limadas por características intrínsecas a elas. E essas características se misturam todas na personalidade de uma pessoa. Não há como separá-las em frascos, como se fossem lixo reciclável e não reciclável. Eu, na figura de comandante do barco, posso me sentir mais à vontade, mais produtivo, com determinados tipos de pessoas, seja por experiências profissionais passadas, por determinadas qualidades que procuro ou, por que não?, por aspectos que, sabe-se lá por qual motivo, quero evitar.

Digamos que eu não vá com a cara de gordinhas. Que as ache descuidadas, preguiçosas ou qualquer outra coisa. Ora bolas, não posso então excluir uma mulher do processo de seleção justamente por, em sendo ela gordinha, passar a mim a impressão de que não será tão produtiva quanto eu desejo, que passará muito tempo comendo biscoitos e tomando café ao longo do expediente? Estando certo, estando errado, não posso fazer isso em minha própria empresa?

E a resposta é: sim, pode. Mas tem de ser hipócrita. Você pode dar um chute nos fundilhos da gordinha por ser gordinha, mas tem de dizer a ela que foi porque o seu perfil profissional não se encaixa com a missão e os valores da empresa. Se falar a verdade, as chances de aparecer em rede nacional como carrasco são enormes.

Tudo isso porque está na moda ser contra o preconceito. É cult. Paremos apenas um instante para pensar sobre. O que é preconceito? É o conceito formulado antes do presente momento, antes da hora em que acontecem os fatos ou, de outra forma, o conceito formado antes do conhecimento real das coisas/pessoas.

Diante disso, o que é a vida senão um emaranhado de ações preconceituosas continuamente colocadas em prática? Mas não, em alguns casos não pode. Ou melhor, pode sim, afinal, por definição é impossível não ser preconceituoso. Só não pode mostrar que está sendo o que se está sendo.

E, assim, mais um ponto para esta que talvez seja o maior mal dos tempos modernos: a hipocrisia.

Consultores do próprio interesse

Os brasileiros não possuem ideologia que vá além do próprio umbigo. Isso explica porque o país possui políticos tão ruins. São o reflexo da sociedade que representam, têm a tendência ao mais puro auto-interesse, que desemboca em corrupção e se verifica nos eleitores de Norte a Sul.

Claro, não falo de todos os brasileiros, de todos os políticos. Mas da média de ambos. O post Pelo direito de ser eu“, recentemente publicado, suscitou muitas críticas tanto aqui como em minha caixa postal. Não vejo problema em críticas. Cada um tem todo o direito de ter sua própria opinião, ao contrário do que pensam alguns. Mas fico decepcionado ao perceber que a defesa deste ou daquele lado respeita, quase sempre, pura e simplesmente aquilo que mais convém ao defensor.

A formação da opinião não segue a lógica de primeiro conhecer os dois lados, as duas linhas de argumentação, e então optar pela que parece mais correta. A lógica se inverte. Primeiro, seleciona-se a solução que mais agrada e, depois, buscam-se as justificativas para a opção. Temos uma espécie de consultor do próprio interesse: primeiro, o resultado que se quer atingir; depois, o trabalho a realizar para buscá-lo.

Em termos práticos, a lei antifumo aumentou significativamente o meu bem-estar. Agora posso ir a qualquer lugar, a qualquer hora, e respirar um ar relativamente mais limpo, livre da inconveniente fumaça. Posso voltar pra casa e não sentir em minhas roupas o resultado de horas de exposição ao maldito cigarro. Meu mundo melhorou a valer com a lei antifumo.

Mas isso não pode me fazer favorável a uma lei cuja elaboração vai contra os meus princípios ideológicos de liberdade. Esses princípios não podem ser maleáveis como uma massinha de modelar. O sujeito que fumava num bar não me obrigava a ir ao mesmo bar e inspirar a fumaça que ele expirava. Eu ia porque queria. Também não me impedia de abrir um bar antifumo ou de fazer um churrasco com os amigos. Não vinha fumar em minha casa. Ao sair de casa, eu sabia o que encontraria e, muitas vezes, optava pelo bar em que mais havia cigarros acesos, porque outros benefícios me faziam acreditar que o cigarro era suportável.

De outro lado, podem e devem estar os que acreditam em menos liberdade e mais intervenção. Que acreditam ser o Estado responsável por regular questões puramente individuais – no caso do cigarro, a individualidade do dono do estabelecimento escolher se quer ou não fumaça em seu recinto. Não tenho cacife para dizer se estão certos ou errados. Apenas para dizer que não comungo da mesma linha ideológica. Esses, eu respeito.

Já aqueles pretensos libertários que adequam sua “ideologia” à bel conveniência de seus interesses. Que defendem a liberdade de modo torto, mirando um resultado positivo para si ou usufruindo de alguma posição privilegiada. Que tratam casos essencialmente iguais como diferentes por trazerem efeitos umbilicais distintos.  E que, pior, não assumem a estratégia de que lançam mão, aqueles não merecem a minha séria consideração.

Fórmula (3 em) 1

Na segunda prova da temporada, ganhamos um reforço de peso para a coluna. O terceiro elemento da agora “Fórmula (3 em) 1”. Seja bem-vindo, Marcelo Cerri!

A Fórmula 1 agradece

Por Thiago Barros Ribeiro

CORRIDAÇA. O GP da Austrália teve tudo o que uma grande corrida, em qualquer categoria, precisa ter: uma pista que permite ultrapassagens, a estratégia como um dos fatores na receita para a vitória e grandes atuações individuais.

É necessário lembrar que a Oceania há anos se notabiliza por, ao lado de Montreal, Spa e Interlagos, oferecer aos fãs da velocidade as melhores provas da temporada quando se fala em emoção. Mas a deste domingo não foi apenas emoção. Falemos dela por meio dos atores principais.

Jenson Button: o inglês repetiu as atuações brilhantes do início de 2009, que lhe garantiram a taça. Pouco espetáculo, muita eficácia. A decisão de trocar os pneus antes de todo mundo assumiu o risco que apenas os grandes encaram e que os “sábios” de plantão, como Galvão Bueno, não entendem de pronto – aliás, o global destoou do nível da prova, com uma péssima narração. Coloca um monte de interrogações em afirmações como a minha na última coluna, de que é menos piloto do que seu companheiro Hamilton. Certo está que o campeão de 2008 é mais espetacular, mas todas as vezes em que foi chamado a mostrar seu talento  – como hoje, quando tomou olé de Alonso – sucumbiu. Como ser piloto não é apenas dar espetáculo, teremos de esperar mais um pouco para pontificar quem é o melhor entre ambos.

Robert Kubica: o polaco também andou muito. Favorecido pelo ótimo trabalho da Renault no momento das trocas de pneus, manteve-se até o fim à frente das melhores Ferrari, McLaren e Red Bull. Merecia mais carro, talvez a Red Bull de Weber.

Felipe Massa: fez duas corridas. Uma correta, que começou com a belíssima largada e continuou a partir do momento em que a pista secou. Outra abaixo da crítica, enquanto a chuva umedecia o terreno. Ficam duas considerações, que o pachequismo não pode esconder: o brasileiro mais uma vez mostrou ser dos piores quando o assunto é pista molhada e, passadas duas corridas, tomou tempo de Alonso durante praticamente todo o tempo. Se não melhorar rapidamente, o título vai sumir do mapa.

Fernando Alonso: dá toda a pinta de sobrar no grupo. Foi de uma rapidez assombrosa quando teve de se recuperar do incidente com Button e Schumacher no início e, se quisesse ver o circo pegar fogo, poderia ter sido mais Alonso contra Massa. No fim, brindou-nos ao fazer Hamilton e Weber, quase dois segundos mais velozes, dançarem e beijarem-se atrás de si.

Michael Schumacher: pra terminar, o hepta confirmou: não voltou no mesmo nível dos melhores alunos da turma. Hoje, é apenas um daqueles esforçados que passam raspando. Ficou quase toda a corrida atrás de Alguersuari.  Se continuar assim, vai obrigar os adoradores que o colocam indiscutível como o maior de todos a reverem seus conceitos ou a deitarem na cama da incoerência.

***

Só pra contrariar

Por Daniel Marchi

Diferentemente de uns e outros que querem transformar a F-1 num circo, não reclamo de GPs (supostamente) entediantes como o do Bahrein. Eles são importantes para valorizarmos provas tão interessantes e repletas de variações como a australiana. Sinceramente não me lembro de outra prova com tantos pilotos “virando a mesa”, no bom sentido obviamente.

Button foi corajoso ao apostar no pneu slick num momento de dúvida para a maioria dos outros pilotos. Mostrou equilíbrio emocional digno de um campeão e fez uma prova impecável. Kubica, correndo por uma equipe que na prática é semi-oficial, livrou-se da confusão na largada e foi consistente o tempo todo. Pode pleitear uma vitória nalguma corrida maluca em 2010. Massa tinha tudo para contabilizar outro resultado inferior ao seu companheiro de equipe. Sustentou o terceiro posto de forma quase milagrosa.

Alonso: muito, muito forte até aqui. Caiu para a rabeira e recuperou-se incrivelmente rápido. Ao contrário de Schumacher – que vem comendo o pão que o tempo amassou – não levou 40 voltas para ultrapassar os carros mais lentos. Se não fosse a queda de rendimento no final, por conta dos pneus, poderia beliscar um segundo posto. GPs assim o fazem credor de mais confiança e apoio da equipe. Felipe arrumou uma sarna enorme pra se coçar… Vettel, coitado, relatou problemas no freio dianteiro esquerdo, o que pôde ser evidenciado pelas imagens da TV. Acreditemos nele. Monza 2008 provou que ele é bom demais na chuva para cometer aquele tipo de erro.

E assim o campeonato começa a acontecer. Claramente as equipes ainda estão desvendando os mistérios da nova dinâmica imposta pelo fim do reabastecimento. Um exemplo disso foi o ritmo forte que Hamilton e Weber desenvolveram ao optarem por uma segunda parada. Se não fossem afoitos na hora errada, teriam superado as Ferrari.

Quem avançar um pouco mais na compreensão do consumo de combustível e desempenho dos pneus colherá bom resultado na Malásia, prova marcada na maioria das vezes por intenso calor e uso extremo da borracha. Provavelmente veremos uma prova mais convencional… só pra contrariar.

***

Detalhes de um show

Por Marcelo Cerri

Como nosso estimado blog se propõe, também o obediente colaborador que vos escreve se propõe a discutir sobre coisas mais do belo GP da Austrália. A corrida foi memorável, daquelas que contarei aos meus filhos e netos com muito orgulho. Vivemos um período de grandes pilotos, temos que nos dar conta disso e ficar felizes por termos esse privilégio. Não vejo os ídolos de nossa infância, como Senna, Piquet, Prost e Mansell, como mais geniais que Alonso, Hamilton, Kubica, Massa etc. Mas não pretendo me prender a essas obviedades, há coisas mais a serem discutidas.

O retorno de Schumacher nos deixou eufóricos, mesmo sabendo de todas as dificuldades que encontraria pela sua idade e pelos três anos parados. No entanto estamos tomando a ducha de água fria que já esperávamos. O maior vencedor da história da F1 está evoluindo, no GP da Austrália seu rendimento foi muito semelhante ao de seu companheiro de equipe em termos de tempos. Poderia até mesmo ter se classificado à frente de Rosberg , não fossem os infortúnios em sua volta rápida (o Alemão tem moral para tirar satisfações com Alonso sobre ser atrapalhado em treino classificatório?). Mas ficar 46 voltas atrás de Alguersuari, enquanto aconteciam dezenas de ultrapassagens entre os outros pilotos é algo decepcionante. Esperamos de um heptacampeão ao menos um pouco de agressividade e espírito de luta.

Também chamou a atenção o rendimento no mínimo desastroso de Kobayashi. O japonês da BMW Sauber Ferrari, que nos impressionou em sua estréia na Toyota nas últimas etapas do ano passado, além de não andar à frente de Pedro de La Rosa, sofreu vários acidentes durante o final de semana, culminando com a forte batida nos inocentes Hulkenberg e Buemi, ainda na primeira volta da corrida. O detalhe que me deixa com a pulga atrás da orelha é que nos treinos da manhã de sexta-feira, a asa dianteira da Sauber de Kobayashi simplesmente se espatifou sem qualquer motivo aparente. No acidente de hoje, as imagens que precedem o vôo do japonês sobre os monopostos da Williams e da Toro Rosso mostram que sua asa dianteira já estava embaixo do carro mesmo antes de bater no muro. Asas que se desintegram, molas que voam… será que essas falhas não são frutos da falta de testes?

Falando na proibição dos testes, a FIA e a FOTA terão que resolver o impasse das equipes novas. Simplesmente preencher o grid com monopostos da GP2 não resolve o problema da escassez de equipes. Se eles não testam, não podem evoluir e ficarão o ano inteiro atrapalhando os carros de F1. Mas aí vem aquele raciocínio incômodo: a proibição dos testes teve como objetivo a redução dos custos, que teve como conseqüência a entrada de novos times. Será que os novos times teriam condições financeira de fazerem testes extras?

Marcelo Aguiar Cerri é economista e filósofo, cristão católico, sampaulino, entusiasta de automobilismo e um grande pescador. Nas horas vagas é servidor público.

Pelo direito de ser eu

Ao som de João Donato e Paulo Moura – Dois panos pra manga -, estava eu terminando em calmaria a chuvosa tarde da sexta paulistana. Notícias daqui, notícias dali, entro no Estadão e leio a manchete “Serra prepara nova ‘lei anticoxinha’ para escolas”. As náuseas que se seguiram não foram por pensar na gordura das coxinhas, que “justifica” a lei para o “bem” dos pequenos – ao contrário, lembrei-me da deliciosa coxinha com catupiry da Doçura, uma das maravilhas de Rio Preto e do mundo – mas por imaginar, ainda que rapidamente, aonde iremos chegar.

Caminhamos a passos largos para o mundo mais odiosa e politicamente correto que se possa imaginar. Um lugar em que uma ideia já distante chamada “liberdade individual” deixará de existir. Em que seremos obrigados a viver cada instante, a inspirar e expirar cada naco de ar, segundo as regras ditadas por nossos administradores e legisladores, que, oniscientes, sabem tudo o que é melhor pra mim e pra você.

Chegará o dia em que nem mesmo sampaulino poderei eu ser. Para evitar a violência nos estádios, e nos seus arredores, haverá um iluminado para determinar que cada Estado tenha um time único e, logicamente, proibir que os torcedores de um Estado viajem até outro, o que poderia trazer contratempos.

A tal da lei contra as pobres coxinhas exacerba a descabida interferência externa sobre o indivíduo que pintou com força nos últimos tempos por meio de duas outras peças: a que proíbe dirigir com uma gota de álcool no organismo e a que proíbe fumar em qualquer lugar público com um toldo que seja acima da diabólica criatura que infesta o ambiente.

Ora, será hipócrita o primeiro – e os outros também – que disser nunca ter tomado o volante depois de uma latinha. E será mentiroso o que afirmar que uma latinha torna o sujeito incapaz de dirigir. A chorumela de que é melhor proibir totalmente porque depois da primeira se perde o controle – do volume de bebida, não do veículo – assume de barato que somos todos alcoólatras e, desculpem-me, não pode ser levada a sério.

A outra, de que medidas drásticas são necessárias porque se lida com a vida de inocentes, não soa mais convincente. Primeiro, porque os irresponsáveis e assassinos que, bêbados, causam a morte respondem criminalmente pelos seus atos, e a pena deve ser grande o suficiente para desencorajar os mais alegres. Se não é, que seja.

Segundo porque, seguindo esse brilhante raciocínio, teríamos de proibir também viagens de qualquer tipo – o avião pode cair, o ônibus ou o carro bater, matando um monte de inocentes -, além da prática de qualquer esporte – há muitos casos em que inocentes têm morte súbita ao praticá-los -, a caminhada de casa para o trabalho – o inocente pode ser vítima de assalto ou mesmo atingido por um raio. Ter-se-ia, enfim, que obrigar o sujeito a sair da maternidade para a casa – não sei como, pois sempre poderia acontecer algum acidente fatal no meio do caminho – e lá aguardar sua morte por causa natural, aos 80 anos.

A lei antifumo não é menos absurda ao tirar de todas as pessoas o direito de escolherem em que tipo de ambiente estar. Se eu não fumo e não quero estar num lugar onde qualquer pessoa fume, que seja eu consciente e me rebele contra o cigarro. Numa sociedade minimamente ativa, eu não seria o único a fazer isso e não tardariam a aparecer empresários para oferecer bares, restaurantes e tudo o mais onde fosse proibido fumar. Aparecer um governo estabelecendo isso de cima pra baixo não é apenas autoritário, mas chama indiretamente todos os cidadãos de gado. Uma boiada que não sabe o que fazer para se proteger do mal e precisa do seu vaqueiro para guiá-la, nunca livre do risco de ser o boi das piranhas.

O que dizer então da lei anticoxinha? Faltam-me palavras diante de tamanho disparate, de tamanha crueldade. De uma tacada só, dá um tapa na cara de todos os pais, acusando-os de total incapacidade para educar os filhos, e ainda tira dos pequenos o prazer momentâneo, mas incalculável, de vez por outra comer uma boa coxinha, como aquela que eu tantas vezes devorei na saudosa Doçura.

Fico tão fulo com essas coisas que, já que não fumo, o negócio é ir ao encontro do torresminho e da gelada que me esperam. Pelo menos enquanto eu posso fazer isso no Brasil.

Relato de Marte

Se um marciano desavisado caísse de paraquedas em nosso Brasil varonil nesta malfadada semana e tivesse como único meio de se conectar à realidade alheia um aparelho de TV com os canais abertos, voltaria para o seu pátrio planeta com um relato inusitado sobre as bandas desconhecidas.

A pobre criatura verdolenga ficaria certamente muito bem impressionada com a mania de justiça do povo além-espaço. Diria aos seus conterrâneos (ou seria comarcianos?) que esse negócio de deixar julgamentos a cargo de juízes preparados para tal e afastados de interferências externas era coisa de planeta atrasado. Que, no planeta azul do futuro, toda a sociedade estava preparada para fazer justiça, tanto que um aparelho eletrônico transmitia 24 horas por dia imagens de julgamentos capazes de engajar toda uma sociedade.

Concluiria com razão o bom cabeçudinho que o planeta vizinho estava tão à frente que conseguira resolver todos os pepinos que o seu pobre Marte ainda enfrentava a duras penas. Saúde, educação, segurança, tudo uma belezinha.

Segurança principalmente. Os colegas de longe eram de tal forma eficientes neste quesito que prenderam todos os responsáveis pelos delitos e, agora, preocupavam-se apenas em estabelecer as penas finais, naqueles que pareciam ser os dois últimos casos a se resolver no admirável planeta distante: uma dupla acusada de atirar um semelhante menor do alto de uma estrutura de concreto e um outro mais nebuloso, aparentemente um crime mais sério e coletivo, já que várias pessoas eram mantidas presas enquanto julgadas e a transmissão contava com um vasto e tecnológico repertório de reconstituições que auxiliavam a desvendar o mistério, fosse qual fosse.

O verdinho também reservaria bom espaço de seu relato àquele que pareceu ser o comandante da nave azul. Um sujeito alto, magro, cabelo fortemente acinzentado e um par de pequenas peças finas e transparentes à frente dos olhos, desconhecidas em Marte. Apesar de não entender nada do que o referido sujeito falava, era certo que suas palavras eram de uma sabedoria inefável. Todo aquele povo parava à frente dos aparelhos transmissores para ouvir atentamente os ensinamentos e, por fim, emocionava-se com a sentença daquele que indubitavelmente era o principal julgamento. O réu condenado, então, abandonava a sala do tribunal e partia aos prantos para algum triste destino que o pequeno verde não conseguira identificar, certamente por estar a anos-luz daquela sociedade tão avançada.

A conclusão do escriba marciano, ipsis litteris:

Um povo a se imitar. Uma fonte de inspiração para que Marte, um dia quiçá, possa gozar de tamanha tranquilidade e altivez, a ponto de toda a sociedade, unida e esclarecida, ser capaz de definir as derradeiras soluções para a paz etérea.

Lyra do comunismo juvenil

Há tempos defendo a tese de que 6 em cada 10 comunistas com menos de 30 anos de idade não sabem o que é comunismo e os outros 4 se dizem comunistas com o pragmático propósito de conquistar jovens mulheres comunistas, que também não sabem o que é comunismo.

Estejam em um ou outro grupo, os 10 jovens aderem ao comunismo pela marca – da mesma forma que bebem Coca-Cola, calçam Nike, vestem Lacoste (sim, os comunistas fazem isso!)  -, não pelo conteúdo. Vestem o comunismo por ter o superficial apelo cult tão venerado pelos jovens que, felizmente, envelhecem.

Estava eu lendo o agradabilíssimo Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro (2008, Companhia das Letras), quando, lá pela página 250, de repente, não mais que de repente, a tese ganhou mais um caso prático.

Carlinhos Lyra, um dos grandes nomes da nossa música, figura importante no nascimento da Bossa Nova, definido por Tom Jobim como o maior melodista do movimento. Lyra, por volta dos seus tenros 20 anos, participou da fundação de uma célula do Partido Comunista em Higienópolis, São Paulo. “De esquerda”, sentia-se por vezes frustrado em fazer apenas músicas alienadas ao lado do parceiro Ronaldo Bôscoli (“de direita”) e, em meio a seu processo de afastamento da turminha da Bossa, passou a compor coisas mais engajadas.

Depois do prelúdio, a comprovação da tese. O mesmo Lyra, exatamente à mesma época (1960), participou da criação do Centro Popular de Cultura, no Rio de Janeiro. A idéia inicial dos fundadores era criar o Centro de Cultura Popular, mas Lyra foi contra, sob a seguinte argumentação, retirada do livro de Castro:

Sou contra“, ele votou. “Sou burguês. Não faço cultura popular, faço cultura burguesa, não tem jeito.” O livro continua, delicioso (comentário meu entre parênteses):

Alguns o olharam horrorizados. Como alguém tão inteligente e alinhado com as aspirações populares poderia dizer-se ‘burguês’? (talvez porque ser inteligente não significa ser hipócrita) Carlinhos explicou que o fato de gostar de samba de morro não o fazia ter vontade de mudar-se para a favela e que, portanto, não saberia produzir o tipo de música que aqueles sambistas faziam. Além disso, usava camisas de zuarte, compradas na Casa da Pátria, na praça Quinze, apenas porque estavam na moda.

Lyra ganhou adeptos em sua lúcida explanação e o nome escolhido foi Centro Popular de Cultura.

Pena que a lucidez juvenil de Lyra na música não alcançasse a política, fazendo-o perceber que, para ser um “burguês comunista”, o mínimo que deveria fazer seria alienar todos os bens familiares em favor do “proletariado”, ou de um Estado “benevolente” que os redistribuiria aos operários. Mas aí deixaria de ser um “burguês”. Dar leite para as crianças pobres, como dizia o pai de Lyra, não era o bastante.

E justo ele, que não queria ser alienado como Bôscoli. Provavelmente, era mais. Mais alienado. Mais um dos 6 entre 10 comunistas juvenis.

Estranho país

Estranho o país em que se luta mais pelos direitos dos outros do que pelos próprios direitos.

Estranho o país em que se engaja mais numa votação de reality show do que na votação para presidente da República.

Estranho o país em que se julga mais pela aparência do que pelo conteúdo.

Estranho o país em que é mais vantajoso ser um ator bonito e sem talento do que talentoso e sem beleza.

Estranho o país em que José, cantor famoso, é excêntrico, e José, pedreiro pobre, é louco.

Estranho o país em que se joga lixo na rua e se reclama dos bueiros entupidos.

Estranho o país em que se elogia o Bolsa-Família mas não se adota uma criança.

Estranho o país que critica a eutanásia, mas defende o aborto e o sacrifício de animais.

Estranho o país que ajuda estrangeiros e se mantém necessitado.

Estranho o país que ri da própria desgraça e se contenta com a própria miséria.

Estranho país.